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Entrevista ao Phay Grand o Poeta (Não tenho página nenhuma. Nem uso Internet)

De ‘Paizinho’ para ‘Phay’

O nome de registo é Osvaldo dos Santos Nhanga, solteiro, de 32 anos, nascido em Luanda. Começou no rap em 1997, aos 12 ou 13 anos. O nome artístico, Phay Grande, vem da convivência com um tio que era carinhosamente tratado de ‘pai’, por todos em casa. A alcunha do rapper era Paizinho e, como ia crescendo, com a influência do rap, não poderia continuar a ser Paizinho, substituiu-o por Pai grande. O ‘Poeta’ é por ser rapper. O sucesso começou a espreitar em 2003. Tem dois álbuns: volumes, 1 e 2 de ‘Pão burro, um maxi single ‘O que é isso’ e uma colectânea de 21 faixas.

Phay Grand o Poeta é dos ‘poetas’ que conseguiram conquistar, mantendo-se fiel à autenticidade dos poemas que retratam as vivências nos bairros. Quebrou o silêncio ao NG justificando que está desaparecido para lhe darem mais valor”. Sente-se longe do mundo que nem sequer usa as redes sociais. “Nem uso internet”, desabafa.

Anda desaparecido?

Não é bem desaparecer, é um tempo sem lançar álbum. Há dois anos, lancei o último som (‘Atirados à sorte’). No ano passado, ainda participei num “cypher” (uma roda de rappers em cada um, de forma livre, vai rimando um conteúdo pré-escrito ou ensaiado). Mas isso é próprio. De quando em vez, tenho de dar uma pausa e também porque lancei trabalhos em anos seguidos. Quando se lança tanto, as pessoas começam a ver que é algo que se faz do dia para a noite. Tira um pouco o prestígio. Noto que, depois de a pessoa ficar um tempo sem lançar, se dá mais valor ao que tinha feito. Tenho um álbum, desde 2008, só falta lançar.

E de que está à espera?

Agora não é como antigamente. Os preços subiram muito. O nosso país não fabrica, pode gravar-se fazer tudo aqui, mas é preciso pagar discos, capas e isso vem de fora. Os preços triplicaram, mas o preço do CD é sempre mil kwanzas. Já não faz sentido. É como gastar dois mil kwanzas em cada disco para depois vender a mil. É estar a dar dinheiro e música ao povo e para nós, que trabalhamos sozinhos, não há condições. Por isso, estou pausado.

Mas pedem para voltar?

Aqui querem mais é a música, não se preocupam em apoiar o cantor quando está a vender. Preferem passar as músicas para o telefone. Só querem alguém para os animar. Estão na festa a ouvir a tua música enquanto o dono está rebentado com os discos em casa! Mas também queres que eu lance álbuns de um em um ano?

Não. Músicas…

Já tenho mais de 70 músicas. Há muita música para se ouvir, como não tocam mesmo nas rádios, não sou conhecido, a não ser quem está dentro do movimento.

Não vive da música?

Não, não vivo da música. Não ganho lá nada. Só lanço discos, tento recolher uns trocos de leve, mas também não tenho lucros. Os que vivem da música são os que têm espectáculos, mas o nosso estilo de música (‘underground’) não é dançante. O único sítio onde posso actuar é em ‘shows’ de rap, e esses são poucos. E se te chamarem, não te vão pagar na mesma.

Qual é a outra profissão?

Não vou falar muito da minha vida. Se disser que vendo cabuenha, todo o mundo se espanta: “olha, Phay Grande, além de cantor, vende cabuenha…”. Cada um se vira com a vida dele.

Tem algum objectivo?

Encaro a música como desabafo. Quando quero falar de alguma coisa é só escrever e gravar. Não tenho metas do tipo fazer carreira, ser o melhor. Não tenho objectivos financeiros porque sei que a música em Angola não dá dinheiro. Quem tem dinheiro na música são os que fazem moda: se estiver a bater kuduro, faz-se. Se estiver a bater kizomba, segue. Para nós, do rap, claro que nunca conseguimos viver da música.

Não é convidado para espectáculos?

Se me convidarem e aceitarem os meus termos (o linguajar), também aceito. Se for para trocar de estilo, deixa estar.

E actuar noutras províncias?

Nunca aceitei actuar. Prefiro mesmo aqui nas localidades, porque, como não dependo mesmo da música, tenho de estar sempre aqui onde consigo o meu ganha-pão. Se sair, estou só a atrasar os meus negócios do dia-a-dia.

Não poderá render mais noutras províncias?

Se você vê que toda a gente sai de outras províncias para vir procurar a vida em Luanda, é você que quer fazer o contrário? Se aqui já está assim, imagina lá de onde as pessoas querem sair para Luanda. Dos que me convidaram, neguei mesmo.

Tem noção dos fãs que tem fora de Luanda?

Sim. Conheço muito pessoal e tenho recebido um bom ‘feedback’.

O que pensa sobre as fusões?

O rap, como é um estilo falado, pode cantar-se em vários outros instrumentais, mas não estou de acordo. É como querer abafar ou esconder o rap. O rap é um estilo novo. Não é como um estilo antigo que se pode fazer fusões. A fusão acontece porque o estilo não é muito dançante e nós estamos num país com ritmos tropicais, que são dançantes. Quando os rappers querem fazer carreira, dependendo só da música, precisam de estar nos sítios cheios.

Nos EUA os rappers fazem fusões…

Todo o rapper que mistura com outras tendências é porque assinou com uma produtora e está como funcionário desta. Tudo o que lhe mandarem fazer, tem de fazer para poder receber o salário. Um rapper independente nos EUA raramente faz fusão, porque sabe que quer fazer só mesmo rap.

E se uma editora o convidar?

Não vou aceitar! É pá, não estou a generalizar que os rappers ‘underground’ não façam. Eu mesmo é que não quero. Não tem que ver com o meu ser. Quem quiser que o faça.

E ‘Povo burro’ porquê?

O título da música é ‘Pão burro’.

Mas o que mais soa no refrão é ‘povo burro’…

Quando escrevi aquela música, já tinha um monte de outras lançadas, estava numa fase em que sentia que os meus trabalhos não tinham aceitação por parte do público e estava num estado de mente negativa e um pouco deprimido. Não fazia sentido cantar em festas e boa vida quando não é a minha realidade. Tinha de cantar o que vivia, então, escrevi uma música a falar do povo angolano, mas no lado negativo.

Nas músicas fala muito de convívios entre amigos bebendo vinhos e uísques. Sente-se censurado?

A minha música raramente toca na rádio, nem já um trecho como fundo de uma entrevista na televisão ou rádios. Temos muita vergonha do nosso nível social, que é a maioria. Estamos preocupados em mostrar a camada alta, aqui é onde ninguém fica envergonhado. Se cantar que tenho carro, vivo bem, é rápido aceitarem, mas se cantar que não estou muito satisfeito com a vida, entendem logo mal.

Nunca chegou a propor às rádios e televisões a falar das suas músicas?

Já tentei, não deu certo. Já não me preocupo com rádio nem TV. Sei que a promoção se paga, mas para o nosso estilo, mesmo tentando pagar, vão falar para mexer ou melhorar ‘aqui ou ali’ na tua própria música. Se o pessoal escuta e diz está bom, prefiro não depender de nenhum radialista.

Só canta a realidade?

Canto a minha realidade, não dá para inventar. Falo também de situações que constato dos outros.

O que não domino não canto. A maioria dos rappers underground focam abordagens políticas. Eu, como não domino a política, não sei. Não estudei isso. Não sei quais as regras, evito tocar nesses assuntos.

Tem referências de ‘undergrounds’?

Prefiro não citar nomes, para os outros não se chatearem. Quem acha que está a cantar bem deve continuar. Se tiver de falar, é melhor dos estrangeiros, para não me interpretarem mal. Só escuto rap dos anos 1990 até 2001, os que vêm depois, escolho a dedo.

Tem algum ritual que o inspira?

Se tiver um tema na cabeça, desenvolvo em pensamento, quando vou para escrever, é mais fácil. Não sou como os outros que demoram uma semana a desenvolver. Não preciso de beber ou fumar ou andar com a lapiseira na rua para ganhar inspiração. Os rappers que cantam ‘skill’ (os que falam de si nas músicas) é que normalmente precisam desses estímulos para se inspirarem.

Qual é a sua página no Facebook?

Só para desmentir, há ‘muadiês’ a abrirem páginas (nas redes sociais) com o meu nome e a passarem-se por mim. Não tenho página nenhuma. Nem uso internet. Nem sei o que é o Facebook. Estou mesmo parado um pouco no tempo e no espaço. Não sou dessas ilusões, de aparecer muito, nem tenho videoclip. Não sou muito de festas e de sair à noite.

Fonte: Nova Gazeta

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