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MCK - TE ADORO, 2016 [POR ALINE FRAZÃO]


Ver um músico como o MCK, que é muito mais do que um rapper, na capa do Novo Jornal (leia clicando aqui), com uma entrevista suculenta, cheia de conteúdo político e cultural actual e da máxima importância, é daqueles momentos que nos dá esperança.
Ver uma das maiores estrelas da Pop mundial como a Beyoncé fazer uma performance na final do Super Bowl, carregada de um significado político da máxima importância, com a música “Formation”; assistir ao rapper americano Kendrick Lamar, génio do Hip-hop, autor de um dos melhores álbuns do ano passado, To Pimp a Butterfly, vê-lo na sua recente actuação durante os Grammys, mais uma vez, cheia de mensagens políticas da máxima importância para a sociedade americana… Tudo isto faz-nos pensar que a música pode voltar a conquistar um papel central nessa ponte tão necessária entre a cultura e a política, à imagem do que aconteceu nas saudosas décadas de 60 e 70.
Chama-se esperança. E não é dizer pouco, numa era em que a juventude, em termos gerais, perdeu o interesse pela política, vivendo descrente do seu próprio poder de influência, afastada da participação cívica, desinformada, apática, devorada pelo monstro do individualismo que o capitalismo tão engenhosamente fabricou. Mas estes começam a ser outros tempos. Que os adolescentes de hoje tenham como referência a Kendrick Lamar ou, em Angola, ao MCK é uma conquista para o futuro, à que só o tempo atribuirá tamanho justo.
A qualidade do discurso destes dois rappers supera a conversa de muitos políticos e comentadores por aí. Eles representam o povo, colocam as periferias no centro, simbolizam o regresso da honestidade como valor de peso. Aproveitam o seu sucesso como canal para distribuir mensagens que fomentam um sentido crítico apurado. Cada vez que disparam uma rima, acende-se uma luz nas nossas consciências adormecidas.
Cantam contra a exclusão social, contra o preconceito. Reivindicam uma identidade negra emancipada. Não poupam críticas às instituições do Estado, tanto Kendrick Lamar quando critica a polícia americana, ou MCK quando aponta o dedo à ineficiência da Justiça angolana.
Conseguem tudo isso sem trilhar os velhos caminhos das maçadoras egotrips a que o hip-hop se acorrenta tradicionalmente. Estes dois, pelo contrário, têm como âncora da sua voz a comunidade que os sustenta, a comunidade que os empurra, a comunidade que eles representam. Se pensarmos bem, o que mais se pode esperar de um líder?
Beyoncé é um caso à parte. A cantora chegou ao topo do mundo há muitos anos e podemos considerar a sua trajectória bem menos coerente, a nível de mensagens políticas. No entanto, o seu último disco e em especial o single “Formation”, lançado este mês, mergulham de cabeça numa outra abordagem, bem mais politizada, bem mais reivindicativa. Beyoncé é uma das responsáveis pela transformação do feminismo numa tendência mainstream, longe da sombra a que esta corrente política tem sido submetida ao longo das últimas décadas.
Em “Formation”, vemos uma Beyoncé orgulhosa das suas raízes africanas, apontando o dedo ao racismo da sociedade americana, em especial ao tratamento sub-humano que receberam as vítimas do furacão Katrina, na Nova Orleães de 2005. Mais de 10 anos depois, ainda assistimos a notícias de assassinatos de jovens negros americanos, vítimas de um estado policial racista, de costas viradas para o seu passado e para o legado de Luther King.
É em 2016 que vemos toda uma geração de músicos americanos a reivindicar justiça, a defender uma identidade histórica de lutas sociais ininterruptas. Não viram a cara, como não virou a cara Miriam Makeba ao apertheid sul-africano, como não virou a cara Nina Simone à segregação dos anos 60 nos Estados Unidos. Ambas são ícones culturais e políticos que transcendem o seu imenso talento musical, símbolos do inconformismo e da esperança.
Beyoncé na América, a rapper Girinha em Angola. Kendrick na América, MCK em Angola. Artistas que dão cartas na construção de sociedades mais equilibradas, menos preconceituosas, menos individualistas. Reflectindo os tempos em que vivem, como defendia Nina Simone e tantos outros nomes que ficaram para a História.
A História canta-se hoje. E eles sabem, elas sabem. Pois à História pertencem.

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